O Tejo a bombordo, a cidade a estibordo, um vento gélido de Janeiro pela proa e uma serpentina de automóveis à popa. Buzinas de incentivo a uma intrépida navegação de triciclo. Nem todas. Há quem se exaspere com os escassos nós da barcaça que nos impele por leitos escalavrados em tom de girassol. Aqui paralelos, além alcatrão, acolá saibro de uma qualquer obra inconclusiva, adiante os carris do eléctrico. Seca-se-nos a boca com o frio. Fechamo-la. Para evitar uma ou outra mosca serôdia. Trepamos aqui mesmo esta colina, o motor a arquejar, a mão de quem amo a afundar as unhas na minha perna – mais devagar, olha o buraco, cuidado com os carros, que frio, atenção à curva -, e de súbito um capricho de alvenaria, uma água-furtada, um pináculo, uma caleira, um lençol a ser furtado à corda, um zimbório a despontar do casario, o confuso perfume de especiarias, excrementos de pombos, vestígios, a um só tempo, de chuva carbónica e da condição humana, de vetustas drogarias e de senhoras bem-postas que se revezam nos cafés, da naftalina que se desprende de um velho a acenar-nos num assomo de alegria, quando aportamos para o deixar atravessar a passadeira, outro que nos observa num torpor de vinho enquanto procura chegar na oblíqua à outra margem. A réstea de Idade Média numa quelha do Castelo que vislumbramos quando travados por um semáforo. É Lisboa que se desenha como se nunca a tivéssemos visto. E o vento deixa de importar. E as buzinas convertem-se num eco longínquo. E o Sol acende-se dentro de nós. E até de quem nos fotografa como se fôssemos um epopeico par de descobridores que é preciso imortalizar.
27 janeiro, 2013
amarelo torrado
O Tejo a bombordo, a cidade a estibordo, um vento gélido de Janeiro pela proa e uma serpentina de automóveis à popa. Buzinas de incentivo a uma intrépida navegação de triciclo. Nem todas. Há quem se exaspere com os escassos nós da barcaça que nos impele por leitos escalavrados em tom de girassol. Aqui paralelos, além alcatrão, acolá saibro de uma qualquer obra inconclusiva, adiante os carris do eléctrico. Seca-se-nos a boca com o frio. Fechamo-la. Para evitar uma ou outra mosca serôdia. Trepamos aqui mesmo esta colina, o motor a arquejar, a mão de quem amo a afundar as unhas na minha perna – mais devagar, olha o buraco, cuidado com os carros, que frio, atenção à curva -, e de súbito um capricho de alvenaria, uma água-furtada, um pináculo, uma caleira, um lençol a ser furtado à corda, um zimbório a despontar do casario, o confuso perfume de especiarias, excrementos de pombos, vestígios, a um só tempo, de chuva carbónica e da condição humana, de vetustas drogarias e de senhoras bem-postas que se revezam nos cafés, da naftalina que se desprende de um velho a acenar-nos num assomo de alegria, quando aportamos para o deixar atravessar a passadeira, outro que nos observa num torpor de vinho enquanto procura chegar na oblíqua à outra margem. A réstea de Idade Média numa quelha do Castelo que vislumbramos quando travados por um semáforo. É Lisboa que se desenha como se nunca a tivéssemos visto. E o vento deixa de importar. E as buzinas convertem-se num eco longínquo. E o Sol acende-se dentro de nós. E até de quem nos fotografa como se fôssemos um epopeico par de descobridores que é preciso imortalizar.
24 janeiro, 2013
crónica da azia
O filho da puta insinua-se gelatinoso como uma salamandra entre seixos de um rio. Anuncia-se doutor. Franqueia portas. Escorrega pelos gabinetes. Serpenteia nos corredores. O filho da puta estudou nos melhores colégios e aos fins-de-semana distribuiu chocolates em sanatórios prenhes de velhos gemebundos e odores de amónia. Certa vez, atente-se bem nisto, chegou a dispor pacotes de arroz em caixas de cartão. Para os pobrezinhos, caralho, para os pobrezinhos... A caridade e o despojamento são virtudes de qualquer filho da puta de pundonor. Integrou, com demais filhos da puta, a juventude partidária. Primeiro a secção, depois a distrital, por fim a sede nacional e, já em regime de posfácio, o entre-nádegas do líder. De permeio licenciou-se. Obteve o grau de mestre na ablação de escrotos. O filho da puta foi a deputado, depois a secretário de Estado, por fim a ministro e, uma vez alcandorado à cintilante galeria dos senadores da República, a roçar a eternidade dos almanaques, escreveu o artigo de opinião que num único rodopio da caneta decapitou, pela ordem que se segue, o governo, o partido, os serviços secretos, a paróquia, o orfeão e o condomínio. Administrou o banco público. Também a sociedade de advogados. Morreu após o almoço a esfocinhar nas mamas da estagiária.
21 novembro, 2012
assim
Tengo, vamos a ver,
que no hay guardia rural
que me agarre y me encierre en un cuartel,
ni me arranque y me arroje de mi tierra
al medio del camino real.
Tengo que como tengo la tierra tengo el mar,
no country
no jailáif,
no tenis y no yacht,
sino de playa en playa y ola en ola,
gigante azul abierto democrático:
en fin, el mar.
Tengo, vamos a ver,
que ya aprendí a leer,
a contar,
tengo que ya aprendí a escribir
y a pensar
y a reír.
Tengo que ya tengo
donde trabajar
y ganar
lo que me tengo que comer.
Tengo, vamos a ver,
Tengo lo que tenía que tener.
Nicolás Guillén
"Tengo", in "Obra Poética: 1958-1972"
11 agosto, 2012
salão playboy
- Queira sentar-se. Então como é que vai ser? – e um odor vago a guisado e a Definitivos no hálito.
Seria curto. Orelha destapada. A delicadeza do pente quando tudo estivesse acabado, as cerdas de um pincel a espalharem talco pela nuca, o suão do secador que enfunava a poupa em ademanes de retrato barroco, um ténue inclinar da cabeça como despedida. E a alma muito mais redimida do que à saída da igreja de Queluz, depois de um acto de contrição tão oco como o tubo de plástico através do qual soprava pedacinhos de papel mastigado ao investir contra exércitos imaginários no quintal da minha avó. Tenho muita pena de Vos ter ofendido, mas tenho ainda mais pena de ter visto partir os samurais, um após outro, para o mesmo ocaso onde um dia acabaria por depositar a infância.
09 agosto, 2012
02 agosto, 2012
27 julho, 2012
25 julho, 2012
30 maio, 2012
28 maio, 2012
dez meses
Passei a medir-me pela largueza do sorriso do meu filho. Há raios de luz no sorriso do meu filho. Céus que se rasgam. Nuvens que desaparecem. Regatos de chocolate no sorriso do meu filho. Bolachas com recheio de baunilha. As migalhas a precipitarem-se pela camisola de lã. A pastilha esférica que descobria em pequeno no fundo de um Epá. É lá que moro. No sorriso do meu filho. É no sorriso do meu filho que quero adormecer. E acordar. Até ao dia em que não poderei mais fazê-lo.
26 fevereiro, 2012
10 janeiro, 2012
xangri-lá
J ulião deparou-se com uma gaivota moribunda na Rocha Conde de Óbidos e largou a correr para casa. Sem despir o anoraque, sentou-se ao computador para narrar no feicebuque o místico episódio da ave que morria. Depois, ainda mal refeito, comeu uma bolacha de canela e bebeu um copo de leite.
No feicebuque de Natália há fotografias de Natália. No feicebuque de José há fotografias de José. No feicebuque de Maria há fotografias de Maria. Maria é amiga de José e de Natália. Já José é apenas amigo de Maria. Ao passo que Natália é também amiga de Julião. No feicebuque.
Mário gosta de se ver de óculos escuros e tronco nu no feicebuque. Antónia marcou um encontro com Mário. Através do feicebuque, onde encontrou Mário de óculos escuros e tronco nu. Na Costa de Caparica. Ambos leram a história da gaivota que expirava lentamente na Rocha Conde de Óbidos. Por via do feicebuque de Julião. Ela enterneceu-se. E chegou a chorar. Ele muniu-se de um palito para extrair de uma fissura entre incisivos um teimoso filamento de carne assada que ali se aninhara ao almoço.
02 janeiro, 2012
tu e eu
S e acordo cinzento, o teu sorriso expurga-me de sombras. Se perco o sentido, o cristal nos teus olhos devolve-me ao caminho. Se o dia gotejou lento como melaço, encontro-te ao chegar a casa e renasço. Não me deixas dormir. Não faz mal. Porque me perderia se te perdesse. E isso que seguras agora entre as mãos, como se fosse um dos teus brinquedos de peluche ou o último biberão da noite, é o meu coração.
30 dezembro, 2011
janeiras
A mílcar Barca desenhava a órbita de Calisto num guardanapo de papel enquanto a mulher aproximava o isqueiro de um coto de acendalha entre duas pinhas na lareira, a um extremo da sala de jantar. Um pequeno halo. Em breve chamas a lamberem o azinho. Encostado à cristaleira, um pinheiro de Natal a desfazer-se em tiras verdes. Tapada das Mercês. No quarto mais exíguo do quinto direito, a avó confiava a dentadura a um copo de vidro espesso sobre a mesa-de-cabeceira. O avô gemia debaixo de um cobertor eléctrico. Peidava-se amiúde. Depois tornava a gemer. Angina. Dali a três dias e metade de uma noite tombaria morto no mosaico frio da casa de banho ao sacudir o pénis depois de ordenhar a urina possível.
- Morreu o velhote do quinto direito - De quê? - Diz que se apagou a mijar – Homessa – Parece que sim – Não estaria a esgalhá-lo? – Que disparate – Bom, para se morrer basta estar-se vivo – Essa é que é essa – És pó e em pó te tornarás, ou lá como é que se diz – Bonito – Era velho e morreu, pronto – Sabes que mais? – Diz – Quero que se foda.
Na mesa da cozinha, Júpiter já se agigantava no guardanapo quando Asdrúbal irrompeu das ombreiras. Montava um triciclo de plástico. Pediu uma carcaça com manteiga. O pai mandou-o dar uma curva.
30 novembro, 2011
luminária
Nota introdutória: o cenário é a Assembleia da República; trata-se de uma audição de finais de Outubro, dedicada à estratégia do Governo de Pedro Passos Coelho para os transportes públicos, em sede de Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas; o interlocutor do ministro da Economia é o deputado comunista Bruno Dias; o amanuense que sai em socorro de Álvaro Santos Pereira é Sérgio Monteiro, secretário de Estado dos Transportes.
29 setembro, 2011
02 julho, 2011
cento e treze
E screve qualquer coisa. Anda, rapazote. Acopla as nádegas à cadeira, chega-te à frente. Não sejas imprestável. Sempre a pensar em mortes de agonia. O unto a desenhar cristais nessas artérias de freira entrevada. Anda, gordo. Mexe-te. Que as análises não estavam grande coisa e a tensão oscilou como uma báscula de circo. Estás tramado. Olarilolela. Eu seja ceguinho. Um destes dias fazes menção de erguer o corpo e achas-te paralítico, os vasos a romperem-se-te de um extremo ao outro do coco. Mas vê se escreves. É preciso começar por algum lado. Um passo. Dois. Três. E cais sobre o sofá, pitonisa de subúrbio. Amanhã é que vai ser, não é? Amanhã levantas-te e és um atleta capaz de serrar barrotes com os abdominais. Mas o que marchava, agora, era um pastel de nata.