17 Setembro, 2014

funeral víquingue


D e ti sabia, naquele tempo, que dormias num recesso da cave que servia aos meus avós de oficina de chapéus, que escrevias à máquina quando o seixo de giz, a tesoura, as formas, os carrinhos de linhas, a fazenda e o ferro de engomar descansavam, a lua a projectar as sombras de um limoeiro e de uma nespereira ao longo da calçada do quintal. Maio, maduro Maio no gira-discos. Que dispunhas livros em geometrias impossíveis sobre pobres estantes. Muitos livros, cravos, foices, punhos ao alto e homens de barba nas capas, títulos difíceis. A um canto do quarto oblongo e de paredes azuis que daí a anos se esboroariam em torrões de caliça, uma torre de revistas Vida Soviética, jovens russas a estalar de uma felicidade de cera, crianças de bochechas escarlates, o campesinato prenhe de marxismo-leninismo. Papéis, muitos papéis nos intestinos de uma escrivaninha que só me atreveria a investigar se te casasses e emigrasses para as estepes geladas da Amadora. O que veio a acontecer. Em suma, no meu entender de criança, eras um mistifório de inexpugnáveis silêncios, enigmáticos esgares, impacientes meneares da cabeça, frases tão raras quanto lapidares.

 - São precisas gerações até que nasça um cavalheiro – e poder-se-ia ouvir, juro-o, uma pena do canário a pousar no fundo da gaiola à porta da marquise, ou o resto do Definitivo a esgotar-se em centelhas infinitesimais entre os lábios violáceos do meu avô.

Mas eras também um Sumol de ananás e um prato de tremoços com o Tejo a três passos, cacilheiros para lá e para cá, um rei a cavalo enfeitado de merda de pombo, ruas de Lisboa a trote, táxis pretos e verdes, tanta gente, a minha mão pequena a desaparecer na tua mão de gigante, um curto apertão se ensaiasse uma fuga, um filme de desenhos animados escolhido de um Diário de Notícias, o meu dedo a apontar – é este! – a teu pedido, um blusão de bombazina azul, risco ao lado num cabelo ralo, um bife com batatas fritas na Trindade.

- Portaste-te bem – e um piscar de olho. E um sorriso com tamanha ternura entre tamanha austeridade.

Certa vez foste um banho de mangueira num terraço de Portimão. Depois compraste-me uma marioneta de madeira entre repuxos no coração da cidade, a maresia ao fundo, não imaginas o que me custa não ter aqui à mão aquela marioneta de madeira - uma galinha desengonçada que me fez rir como ainda não voltei a rir -, de modo a poder manter-te por perto, se é que me percebes, a minha mão a desaparecer para sempre na tua mão do Rossio para a Praça da Figueira, da Rua Áurea para o Terreiro do Paço, do número 11 da D. Pedro IV até à Praça Vermelha, às cavalitas do urso Misha, ou dos Quatro Caminhos até às estrelas, à boleia de Gagarine. Até logo, tio Carlos.

22 Novembro, 2013

gregory

tenacious

13 Março, 2013

redenção


Q uando me abraça, o meu filho consola-me com palmadinhas nas costas. E sorri, os olhos de amêndoa a cintilarem e os dentitos de leite a sublinharem-lhe a traquinice. Depois larga a correr trapalhão, na alegria irrepetível dos bebés. Designa com o indicador pequenos livros de dinossauros, do Rei Leão, do Mickey e do Donald. Trá-los. Domina as histórias de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Mas senta-se ao meu colo para que eu as desfie. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. As vezes que ele quiser. O meu filho aprendeu há dias a dar beijinhos à esquimó. Se a mãe faz menção de querer um beijinho à esquimó, ele jamais deixa de estender o nariz ao pai. E a quem estiver à ilharga. O meu filho sorri não importa a quem. É plural. Embora pareça sorrir mais a loiras. Não sabe distinguir a maldade. É puro como a água de uma fraga remota. Confio-lhe o meu coração ao sair pela manhã. Devolve-mo lavado e preenchido quando regresso a casa.

12 Março, 2013

legionela


D escalçou sapatos e meias, substituindo-os por um par de chinelos de borracha. Meio-dia. Um vago incómodo no intervalo dos dedos. Removeu o colete de lã, a camisa de flanela e as calças de bombazina, vestindo, em alternativa, uma túnica furtada à metade do guarda-fatos reservada à mulher. Uma agilidade de corista entre números. Estava sozinho. Era seguro. Cingiu a cintura com um cinto de couro. Da mulher. Apontou à sala, onde ergueu a pele de vaca que cobria parte do que lhe parecia um mosaico. Colocou-a sobre os ombros. Seguiu para a cozinha, onde improvisou um capacete com a saladeira e a pluma com uma porção da vassoura. Da faca do pão fez um gládio. De regresso à sala, trespassou a almofada de veludo. Depois sentou-se ao computador para actualizar o curriculum vitae.

05 Março, 2013

comichão


H á uma inquietação filosófica que me surge teimosa entre as paredes do crânio: e se uma destas manhãs os mandasse a todos para o caralho?

27 Janeiro, 2013

amarelo torrado


O Tejo a bombordo, a cidade a estibordo, um vento gélido de Janeiro pela proa e uma serpentina de automóveis à popa. Buzinas de incentivo a uma intrépida navegação de triciclo. Nem todas. Há quem se exaspere com os escassos nós da barcaça que nos impele por leitos escalavrados em tom de girassol. Aqui paralelos, além alcatrão, acolá saibro de uma qualquer obra inconclusiva, adiante os carris do eléctrico. Seca-se-nos a boca com o frio. Fechamo-la. Para evitar uma ou outra mosca serôdia.

Trepamos aqui mesmo esta colina, o motor a arquejar, a mão de quem amo a afundar as unhas na minha perna – mais devagar, olha o buraco, cuidado com os carros, que frio, atenção à curva -, e de súbito um capricho de alvenaria, uma água-furtada, um pináculo, uma caleira, um lençol a ser furtado à corda, um zimbório a despontar do casario, o confuso perfume de especiarias, excrementos de pombos, vestígios, a um só tempo, de chuva carbónica e da condição humana, de vetustas drogarias e de senhoras bem-postas que se revezam nos cafés, da naftalina que se desprende de um velho a acenar-nos num assomo de alegria, quando aportamos para o deixar atravessar a passadeira, outro que nos observa num torpor de vinho enquanto procura chegar na oblíqua à outra margem. A réstea de Idade Média numa quelha do Castelo que vislumbramos quando travados por um semáforo. É Lisboa que se desenha como se nunca a tivéssemos visto. E o vento deixa de importar. E as buzinas convertem-se num eco longínquo. E o Sol acende-se dentro de nós. E até de quem nos fotografa como se fôssemos um epopeico par de descobridores que é preciso imortalizar.

24 Janeiro, 2013

crónica da azia


O filho da puta insinua-se gelatinoso como uma salamandra entre seixos de um rio. Anuncia-se doutor. Franqueia portas. Escorrega pelos gabinetes. Serpenteia nos corredores. O filho da puta estudou nos melhores colégios e aos fins-de-semana distribuiu chocolates em sanatórios prenhes de velhos gemebundos e odores de amónia. Certa vez, atente-se bem nisto, chegou a dispor pacotes de arroz em caixas de cartão. Para os pobrezinhos, caralho, para os pobrezinhos... A caridade e o despojamento são virtudes de qualquer filho da puta de pundonor. Integrou, com demais filhos da puta, a juventude partidária. Primeiro a secção, depois a distrital, por fim a sede nacional e, já em regime de posfácio, o entre-nádegas do líder. De permeio licenciou-se. Obteve o grau de mestre na ablação de escrotos. O filho da puta foi a deputado, depois a secretário de Estado, por fim a ministro e, uma vez alcandorado à cintilante galeria dos senadores da República, a roçar a eternidade dos almanaques, escreveu o artigo de opinião que num único rodopio da caneta decapitou, pela ordem que se segue, o governo, o partido, os serviços secretos, a paróquia, o orfeão e o condomínio. Administrou o banco público. Também a sociedade de advogados. Morreu após o almoço a esfocinhar nas mamas da estagiária.

dos egrégios avós

21 Novembro, 2012

assim


Tengo, vamos a ver,
que no hay guardia rural
que me agarre y me encierre en un cuartel,
ni me arranque y me arroje de mi tierra
al medio del camino real.
Tengo que como tengo la tierra tengo el mar,
no country
no jailáif,
no tenis y no yacht,
sino de playa en playa y ola en ola,
gigante azul abierto democrático:
en fin, el mar.

Tengo, vamos a ver,
que ya aprendí a leer,
a contar,
tengo que ya aprendí a escribir
y a pensar
y a reír.
Tengo que ya tengo
donde trabajar
y ganar
lo que me tengo que comer.
Tengo, vamos a ver,
Tengo lo que tenía que tener.

Nicolás Guillén
"Tengo", in "Obra Poética: 1958-1972"

11 Agosto, 2012

salão playboy

H avia quatro camisas castanhas de manga curta com pequenos bolsos que anunciavam bordaduras de nomes de samurais alentejanos. Joaquim, Fernando, António. Estes nomes. Talvez. Os três de risco desenhado sobre as curvas das orelhas, fios de cabelo domados a borrifos de brilhantina. Um ribatejano apenas. José. Talvez. Há tantos anos. Denunciava-se com as patilhas brancas a apontarem as narinas numa imperfeição de escalenos e por um arquear de joelhos próprio de quem em tempos rabejara. Por vezes um pasodoble num assobio de melro. Havia pentes que espreitavam dos bolsos. O contínuo suspirar metálico de tesouras entre calos, lâminas tão perigosas como a espada de Yoshiteru. Afiava-as um amolador que aos domingos de manhã passava uma flauta de Pã pelos beiços afilados. De nascente a poente. De poente a nascente. Havia um cheiro de sovacos de proletário, de laca e Aqua Velva, tufos de cabelos pelo chão de linóleo que os pés dos samurais iam arrumando à medida que descreviam piruetas. Um quebra-nozes de subúrbio em redor de cadeiras que acomodavam cabeças a nascerem de batas cinzentas, sobre pescoços protegidos por toalhas surradas. Um, dois, três golpes de toalha na napa do estofo.

- Queira sentar-se. Então como é que vai ser? – e um odor vago a guisado e a Definitivos no hálito.

Seria curto. Orelha destapada. A delicadeza do pente quando tudo estivesse acabado, as cerdas de um pincel a espalharem talco pela nuca, o suão do secador que enfunava a poupa em ademanes de retrato barroco, um ténue inclinar da cabeça como despedida. E a alma muito mais redimida do que à saída da igreja de Queluz, depois de um acto de contrição tão oco como o tubo de plástico através do qual soprava pedacinhos de papel mastigado ao investir contra exércitos imaginários no quintal da minha avó. Tenho muita pena de Vos ter ofendido, mas tenho ainda mais pena de ter visto partir os samurais, um após outro, para o mesmo ocaso onde um dia acabaria por depositar a infância.

09 Agosto, 2012

eric