13 Novembro, 2009

cristalino

07 Novembro, 2009

látego

Não sei escrever. Esgoto-me em adjectivos. Tropeço antes de chegar ao ponto final parágrafo. Custa-me ser demorado. Aborrece-me ser curto. De ideias e de engenho. De fôlego e de relevância. Um topete de amanuense ao balcão da repartição de finanças. Diga. As frases saem-me das costelas a golpes de chanfalho, por vezes de uma narina em fiapos de sangue. Se chego a metade de uma página, exulto num contentamento de canário. Temos escritor. Olarilolela. De Verão transpiro quadras de manjerico. Ó meu Santo António ó meu Santo Antoninho na Páscoa quero a giesta no Natal o azevinho. De Inverno tossico relatos de almanaque. Delmiro vivia preso a um passado de sordície em vãos de escada e reuniões do partido que são ambientes que no fundo se completam dado que ambos ressumbram essências de putedo. Que. Que. Que. Que. Ó que caralho. Chafurdo nos dicionários. Tal como o porco da minha tia-avó num lodaçal de talos de couve e casca de batata. Até amanhã.

03 Novembro, 2009

pietas est fundamentum omnium virtutum

Sinto-a a rondar-me como um tigre fátuo. Um breve rugido entre juncos. Depois uma paz parda de recolher obrigatório. Por vezes um sopro morno na nuca. Anuncia-se aos poucos em efémeras vertigens de crepúsculo, em sístoles e diástoles descompassadas, no cingir do torno em redor da dura-máter, no suor errático, no desconcerto da traqueia. Dizem-me que não. Mas eu conheço-a.

comité central

requiem

Esbarronda-se uma arriba em Tenerife. Morrem duas pessoas. A repórter escreve o texto para a peça de televisão. “As duas mulheres que morreram não conseguiram escapar”, explica. Recordo, imagine-se, um coto de giz carmim entre os dedos da dona Bernardete a rasurar-nos as excrescências da sintaxe num quadro da Escola Primária de Queluz.


22 Setembro, 2009

farol

O caminho para o promontório de São Vicente faz-se entre bermas de terracota e tufos de mato estreito, rubores de sol marroquino em peles de albino e línguas ásperas como pigarros de dispensário, aqui três alemães a mastigar pães e salsichas, as bocas escancaradas numa alegria de colesterol à sombra irregular de uma caravana de farturas, acolá a cintura de pipa de uma ave pernalta que regressará a Manchester ao quarto dia do Outono, na mala um sabonete de hotel, uma pequena chaminé que proclamará o Algarve a partir do frigorífico, FRIDGE MAGNETS TWO EUROS!, e um frasco de sais de fruto com areia do Carvoeiro, à esquerda três espanhóis a grasnar, à direita bancadas de camisolas de lã, pequenas rosas do deserto, chapéus de couro e galos de Barcelos manchados de sal.


18 Setembro, 2009

whitman

Entardecer. Aleixo habita o selim de uma bicicleta-tangerina a inclinar-se de velhice sobre as pedras iguais do Largo Marquês de Pombal, despercebido entre estalidos de chinelos e conversas sem chama de banhistas tardios. O Poeta Destemido, proclamam sem quebranto as costas de Aleixo, uma secura de cortiça nos antebraços e o pequeníssimo zimbório negro da bóina a apontar o Norte. Um aceno curto. Num sopro, larga a pedalar epopeias que se perdem na brisa de Setembro como perfeitas bolas de sabão.


17 Setembro, 2009

vasco da gama

Este Setembro é uma gaivota longínqua a franquear as chaminés de Sines. Anuncia-se tímido por entre o cordame de um veleiro esquecido no torpor dos molhes. Ainda tenta mostrar-se rijo, a imitar queixos de pescadores no cais de uma taberna. Mas desfaz-se daí a nada. Tomba à sombra das muralhas. Quando torna a erguer a cabeça é já um doente renal em doce declínio num catre de alcatrão e lagoas desordenadas de empedrado e areia suja. Rua João de Deus. Largo do Castelo. Um homem de olhos transparentes e camisa puída, o mesmo que dispôs automóveis como uma estrela exânime na sua jornada sideral, uma gratidão resignada na mão estendida, sonoros borborigmos de desespero ao contemplar o latão de uma moeda de vinte cêntimos a fulgir como o bricabraque de plástico numa loja de chineses. Agora despede-se do terreiro. Sozinho, leva nas retinas um lume de heroína, uma vaga memória de pés descalços na areia molhada, do terno hálito da mãe após um beijo na testa e do cheiro a mar no pescoço do pai, a cabecear de sono puro no colo quente. Isso e o prenúncio do Outono.
- Só temos isto para lhe dar - e a moeda pinga para a palma escalavrada como uma gota translúcida de placebo.
- Muito Obrigado. Não faz mal. Muito obrigado. Muito obrigado.

16 Setembro, 2009

paz

Porto Covo escreve-se a branco e a azul na linha contígua a praias e pequenas enseadas de calmaria a que alguém chamou Rua do Mar. Há azul nas molduras do casario chão. O mesmo azul do Atlântico que se faz glauco antes de estender toalhas de espuma pelos areais. Há azul no céu. Um azul de ozono sobre uma baía onde não se adivinha a escuna de pavilhão negro. Barcos de pescadores como bagos de arroz numa indolência de porto seguro. Do glauco ao azul.

11 Setembro, 2009

caleidoscópio

Godofredo preencheu o peito de ar, recitou o acto de contrição, persignou-se em piedosa genuflexão e agitou furiosamente o estilete, esventrando ali mesmo o pequeno bico de lacre de sua avó paterna num alvoroço de penas, alpista e moela.

Arsénio teria dado um bom limpa-chaminés, mas foi Augusto quem sobreviveu à explosão da bilha de gás.

Bacelar é um indivíduo.

Augusto desposou a filha do vizinho do terceiro direito, com quem concebeu dois faunos e um minotauro.

Antonino é o proprietário da confeitaria A Salmonela.

De maneira que quando chegou à idade adulta principiou a urinar em alguidares e a vociferar para as fotografias das tias-avós sobre a cómoda. Até ao dia em que conheceu Penélope, um travesti de Alfragide. Agora chama-se Soraia.

07 Setembro, 2009

calções, chinelos e sardinha assada

18 Agosto, 2009

rés-do-chão

Acordei espesso como o manto de cristais de gelo sobre o torreão do Palácio da Pena. A colcha de lavores celestes que está sempre lá mesmo quando não está. Há um velho que me fita do espelho, uma ironia de desembargador jubilado nas sobrancelhas, um pequeníssimo conclave de baba nocturna a um canto da boca, que liberta miasmas de alho e queijo, de inércia e morte difusa, de abandono e capitulação, não dispare, rogo-lhe que não dispare, não me enforque, isso é que não pode ser porque vesti estas calças lavadas, telefone à minha mãe e diga-lhe que me faça um prato de arroz doce. Ei-lo. O homem prenhe de princípios que caminha com olhos meridionais, uma teimosia de pombo urbano a extorquir restos de papo-seco aos interstícios dos paralelos, a espinha vergada ao descalabro do ventre, o couro a escalavrar-se de ano para ano, parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida, ide todos para os tomates mais essa lírica de contentamento colhido em vasos de marquise, amassado em alguidares de plástico e servido aos domingos em travessas de borossilicato. Um bilhete para a primeira fila do supremo enfarte no tlim do microondas. Tlim. Sim? É o colesterol. Bom dia.